Vê: estou batendo à porta. Se alguém escuta meu chamado e abre a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo. (Ap. 3,20)
É maravilhoso que a Liturgia nos conceda um tempo, o Advento, para aprofundar o que vamos celebrar daqui alguns dias: o Natal, o Nascimento de Jesus. Que possamos nos preparar para esse evento de tal forma que a celebração seja realmente a vivência do evento celebrado.
E para viver com intensidade esse evento, o Nascimento de Jesus, a encarnação de Deus, precisamos entrar na verdade que esse evento nos revela: Deus quer morar na nossa vida.
É bonito perceber na Bíblia que Deus desde sempre quis ficar perto do ser humano. Desde o antigo testamento podemos perceber isso. Em Ex 33, 7-11a diz que Moisés armou a tenda de Deus e que essa tenda foi chamada “Tenda do encontro”. Quem quisesse consultar o Senhor deveria se dirigir à tenda. E diz que o Senhor falava com Moisés face a face, como se falam dois amigos.
Depois acontece a construção do Templo (I Re 6-7). O templo era o lugar onde Deus morava. O Deus peregrino, que acompanhou seu povo peregrino, se faz agora Deus urbano, fixando residência entre seu povo.* Deus chega a dizer: “Eu morarei com vocês nesse lugar.” (Jr 7,3). O Templo é a casa de oração: “A minha casa será casa de oração para todos os povos.” (Is 56, 7).
Neste retiro Deus quer nos falar face a face. Quer no revelar Sua proximidade na nossa vida. Quer nos mostrar como desde sempre quis estar conosco. Que possamos nesse momento percorrer rapidamente a história da nossa vida e perceber como Deus nos cercou, como colocou em nossas vidas tantas pessoas que nos levariam a Ele. Lembrar de tantas ocasiões e situações em que pudemos perceber a Sua presença.
E depois de reconhecer tudo isso poder se abrir a uma revelação ainda maior. A revelação que o nascimento de Jesus nos traz: Deus não quer apenas ficar perto do ser humano, mas se fazer humano. Quer fazer do ser humano, de cada um de nós, sua morada. Deus quer colocar sua morada não somente entre nós, mas em nós.
Que possamos nesse retiro abraçar essa realidade: Posso manter-me constantemente na presença de Deus porque Ele está em mim. Não preciso mais viver sozinha (o) tantas situações, boas ou ruins. Posso dividir com Alguém que me habita e, por isso, está sempre comigo, tudo aquilo que me custaria muito viver desacompanhada (o).
E para reconhecer esse Deus que me habita, que escolhe como casa o meu coração, a minha vida, preciso também eu mesma (o) conhecer essa casa. Procurando Deus vamos nos conhecendo. Que esse momento de oração possa ser oportunidade para entrarmos com profundidade nessa casa, no meu coração, que muitas vezes é um mistério até mesmo pra mim.
Temos muito medo de olhar pra dentro. Fazemos muitas coisas durante o dia. Conhecemos muitas coisas, recebemos muitas informações. Mas muitas vezes não sabemos por que reagimos assim ou assado diante de determinadas situações. Ficamos tristes sem saber por quê. Felizes sem saber por quê. Ansiosos sem saber por quê. Angustiados sem saber por quê. Tudo acontece muito rápido e não tomamos consciência da nossa própria existência.
Deus quer fazer conosco um processo de conhecimento: conhecer a Ele e a mim mesma (o). E nessa aventura de viajar pra dentro de si, de se conhecer, é muito bom saber que vamos acompanhados. Muito bonita essa dinâmica que Deus estabelece em nossa vida: buscando a Deus me encontro, buscando a mim encontro Deus.
Poder descobrir como o meu desejo de encontrar a Deus comunga com o desejo de Deus de ser encontrado. A passagem a seguir fala sobre isso.
Palavra de Deus (Lc 19, 1-10)
Palavra de Deus (Lc 19, 1-10)

Jesus tinha entrado em Jericó e estava passando pela cidade.
Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e muito rico.
Ele procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era baixinho.
Então ele correu à frente e subiu numa árvore para ver Jesus, que devia passar por ali.
Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”.
Ele desceu depressa, e o recebeu com alegria.
Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de um pecador!”
Zaqueu pôs-se de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.
Jesus lhe disse: “Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.
Zaqueu desejava ver Jesus. E eu? Desejo ver Jesus? Desejo me encontrar com Ele? Sejamos sinceros. Pode ser que nesse momento não queiramos ver Jesus. Pode ser que estejamos com raiva, revoltados, confusos com certas situações que estamos vivendo. Ou talvez felizes demais, tranqüilos demais, e pensamos que nossa vida está tão boa! Não me faz falta ver Jesus. Na sociedade em que vivemos a não realização é algo terrível e, portanto, melhor nem desejar...
Mas pode ser também que estejamos sentindo que Deus está distante de nós, sentimos falta Dele. Sentimos falta de Suas palavras, de Seu olhar. Queremos vê-lo, mas nos sentimos pequenos, sentimos que existe uma multidão que nos impede. Multidão de coisas pra fazer, multidão de sentimentos, multidão de pessoas com as quais convivo, multidão de pensamentos, multidão de problemas, multidão de preocupações!
Ou pode ser ainda que estejamos tranqüilos, calmos, dispostos, aguardando Jesus que, temos certeza, vai passar.
Seja qual for a nossa situação que possamos ser conscientes dela e que não tenhamos medo de deixar brotar em nós o desejo. Esse mesmo desejo que moveu Zaqueu, que o fez subir em uma árvore para ver Jesus que passava.
Poder então reconhecer o olhar de Jesus sobre nós. Um olhar que reconhece o nosso esforço ou a falta dele. Que reconhece o nosso desejo, ou a ausência dele. Jesus não tem medo de olhar pra cima pra nos ver. Quanto medo temos de olhar pra cima! Quanto medo de reconhecer o que somos de verdade! Quanto medo de reconhecer que somos pequenos mesmo! Mas que isso não nos tira o valor porque Jesus quer se hospedar na nossa casa!
Jesus hoje nos chama pelo nome e diz: Hoje quero ficar na sua casa.
Que possamos, como Zaqueu, recebê-lo com alegria. Recebê-lo como se recebe um amigo. Apresentar-lhe a casa. Mostrar a Jesus aposentos muitas vezes desconhecidos pra nós, aqueles quartos que nos dão medo, aquele outro que anda meio bagunçado, aquele espaço que é o nosso orgulho, aquele outro em que só entramos de vez em quando e reconhecemos que precisamos entrar mais...
Jesus hoje nos chama pelo nome e diz: Hoje quero ficar na sua casa.
Que possamos, como Zaqueu, recebê-lo com alegria. Recebê-lo como se recebe um amigo. Apresentar-lhe a casa. Mostrar a Jesus aposentos muitas vezes desconhecidos pra nós, aqueles quartos que nos dão medo, aquele outro que anda meio bagunçado, aquele espaço que é o nosso orgulho, aquele outro em que só entramos de vez em quando e reconhecemos que precisamos entrar mais...



