%%%

domingo, 29 de novembro de 2009

Retiro de Advento - 1o Dia - Estou batendo à porta


Vê: estou batendo à porta. Se alguém escuta meu chamado e abre a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo. (Ap. 3,20)

É maravilhoso que a Liturgia nos conceda um tempo, o Advento, para aprofundar o que vamos celebrar daqui alguns dias: o Natal, o Nascimento de Jesus. Que possamos nos preparar para esse evento de tal forma que a celebração seja realmente a vivência do evento celebrado.

E para viver com intensidade esse evento, o Nascimento de Jesus, a encarnação de Deus, precisamos entrar na verdade que esse evento nos revela: Deus quer morar na nossa vida.

É bonito perceber na Bíblia que Deus desde sempre quis ficar perto do ser humano. Desde o antigo testamento podemos perceber isso. Em Ex 33, 7-11a diz que Moisés armou a tenda de Deus e que essa tenda foi chamada “Tenda do encontro”. Quem quisesse consultar o Senhor deveria se dirigir à tenda. E diz que o Senhor falava com Moisés face a face, como se falam dois amigos.

Depois acontece a construção do Templo (I Re 6-7). O templo era o lugar onde Deus morava. O Deus peregrino, que acompanhou seu povo peregrino, se faz agora Deus urbano, fixando residência entre seu povo.* Deus chega a dizer: “Eu morarei com vocês nesse lugar.” (Jr 7,3). O Templo é a casa de oração: “A minha casa será casa de oração para todos os povos.” (Is 56, 7).

Neste retiro Deus quer nos falar face a face. Quer no revelar Sua proximidade na nossa vida. Quer nos mostrar como desde sempre quis estar conosco. Que possamos nesse momento percorrer rapidamente a história da nossa vida e perceber como Deus nos cercou, como colocou em nossas vidas tantas pessoas que nos levariam a Ele. Lembrar de tantas ocasiões e situações em que pudemos perceber a Sua presença.

E depois de reconhecer tudo isso poder se abrir a uma revelação ainda maior. A revelação que o nascimento de Jesus nos traz: Deus não quer apenas ficar perto do ser humano, mas se fazer humano. Quer fazer do ser humano, de cada um de nós, sua morada. Deus quer colocar sua morada não somente entre nós, mas em nós.

Que possamos nesse retiro abraçar essa realidade: Posso manter-me constantemente na presença de Deus porque Ele está em mim. Não preciso mais viver sozinha (o) tantas situações, boas ou ruins. Posso dividir com Alguém que me habita e, por isso, está sempre comigo, tudo aquilo que me custaria muito viver desacompanhada (o).

E para reconhecer esse Deus que me habita, que escolhe como casa o meu coração, a minha vida, preciso também eu mesma (o) conhecer essa casa. Procurando Deus vamos nos conhecendo. Que esse momento de oração possa ser oportunidade para entrarmos com profundidade nessa casa, no meu coração, que muitas vezes é um mistério até mesmo pra mim.

Temos muito medo de olhar pra dentro. Fazemos muitas coisas durante o dia. Conhecemos muitas coisas, recebemos muitas informações. Mas muitas vezes não sabemos por que reagimos assim ou assado diante de determinadas situações. Ficamos tristes sem saber por quê. Felizes sem saber por quê. Ansiosos sem saber por quê. Angustiados sem saber por quê. Tudo acontece muito rápido e não tomamos consciência da nossa própria existência.

Deus quer fazer conosco um processo de conhecimento: conhecer a Ele e a mim mesma (o). E nessa aventura de viajar pra dentro de si, de se conhecer, é muito bom saber que vamos acompanhados. Muito bonita essa dinâmica que Deus estabelece em nossa vida: buscando a Deus me encontro, buscando a mim encontro Deus.

Poder descobrir como o meu desejo de encontrar a Deus comunga com o desejo de Deus de ser encontrado. A passagem a seguir fala sobre isso.

Palavra de Deus (Lc 19, 1-10)

Jesus tinha entrado em Jericó e estava passando pela cidade.
Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e muito rico.
Ele procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era baixinho.
Então ele correu à frente e subiu numa árvore para ver Jesus, que devia passar por ali.
Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”.
Ele desceu depressa, e o recebeu com alegria.
Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de um pecador!”
Zaqueu pôs-se de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.
Jesus lhe disse: “Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.


Zaqueu desejava ver Jesus. E eu? Desejo ver Jesus? Desejo me encontrar com Ele? Sejamos sinceros. Pode ser que nesse momento não queiramos ver Jesus. Pode ser que estejamos com raiva, revoltados, confusos com certas situações que estamos vivendo. Ou talvez felizes demais, tranqüilos demais, e pensamos que nossa vida está tão boa! Não me faz falta ver Jesus. Na sociedade em que vivemos a não realização é algo terrível e, portanto, melhor nem desejar...
Mas pode ser também que estejamos sentindo que Deus está distante de nós, sentimos falta Dele. Sentimos falta de Suas palavras, de Seu olhar. Queremos vê-lo, mas nos sentimos pequenos, sentimos que existe uma multidão que nos impede. Multidão de coisas pra fazer, multidão de sentimentos, multidão de pessoas com as quais convivo, multidão de pensamentos, multidão de problemas, multidão de preocupações!

Ou pode ser ainda que estejamos tranqüilos, calmos, dispostos, aguardando Jesus que, temos certeza, vai passar.

Seja qual for a nossa situação que possamos ser conscientes dela e que não tenhamos medo de deixar brotar em nós o desejo. Esse mesmo desejo que moveu Zaqueu, que o fez subir em uma árvore para ver Jesus que passava.

Poder então reconhecer o olhar de Jesus sobre nós. Um olhar que reconhece o nosso esforço ou a falta dele. Que reconhece o nosso desejo, ou a ausência dele. Jesus não tem medo de olhar pra cima pra nos ver. Quanto medo temos de olhar pra cima! Quanto medo de reconhecer o que somos de verdade! Quanto medo de reconhecer que somos pequenos mesmo! Mas que isso não nos tira o valor porque Jesus quer se hospedar na nossa casa!

Jesus hoje nos chama pelo nome e diz: Hoje quero ficar na sua casa.

Que possamos, como Zaqueu, recebê-lo com alegria. Recebê-lo como se recebe um amigo. Apresentar-lhe a casa. Mostrar a Jesus aposentos muitas vezes desconhecidos pra nós, aqueles quartos que nos dão medo, aquele outro que anda meio bagunçado, aquele espaço que é o nosso orgulho, aquele outro em que só entramos de vez em quando e reconhecemos que precisamos entrar mais...

Que a oração de hoje seja reconhecer que Deus está a nossa porta e bate, se escutamos Seu chamado e abrimos a porta entrará e ceará conosco!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pistas de Oração - Nada poderá nos separar do Amor de Deus



Palavra de Deus – Lc 21, 1-4

Jesus estava no pátio do Templo, olhando o que estava acontecendo, e viu os ricos pondo dinheiro na caixa das ofertas. Viu também uma viúva pobre, que pôs ali duas moedinhas de pouco valor. Então ele disse:
- Eu afirmo a vocês que esta viúva pobre deu mais do que todos. Porque os outros deram do que estava sobrando. Porém ela, que é tão pobre, deu tudo o que tinha para viver.


Outro dia estava lendo um livro e a autora dizia que a ela parecia muito fácil orar quando estava com dificuldades, quando tinha problemas. E que achava muito difícil se manter em oração quando estava alegre, feliz, tranqüila. A mim, muitas vezes, se passa o contrário. As dificuldades, preocupações, problemas a resolver, ansiedades, me tiram rapidamente da presença de Deus, ou melhor, me impedem de perceber a presença Dele.

Seja qual for a dificuldade para oração, ter muito ou ter pouco, estar feliz ou estar triste, preocupadas(os) ou tranqüilas(os), essa pequena passagem tem muito a nos dizer. No fundo, não ofereço a Deus tudo o que tenho pra viver. Se tudo o que tenho pra viver neste momento são alegrias, conquistas, vitórias, que sejam oferecidas a Deus. Mas se o que tenho pra viver são preocupações, tristezas, dificuldades, que também sejam oferecidas a Deus.

Nesta oração poderíamos fazer uma composição da passagem, do lugar. Nos imaginar lá, como observadores. Tentar imaginar essa viúva, tentar imaginar a cena, imaginar o que aconteceu antes e depois.

Na minha composição aparecia uma mulher que nem sempre foi viúva. Talvez nem sempre tenha sido pobre. Se deu dois centavos agora é porque deve ter dado mais, quando tinha mais.
Ao imaginar a cena, me comove a delicadeza de Jesus, o carinho com que olha e se refere à viúva. Como acolhe o que ela tem pra dar. E imaginar tudo isso me fazia sentir muito acolhida por Ele. Me fazia perceber que Ele me acolhe a cada momento como estou. Reconhecer o olhar de misericórdia e de Amor de Jesus pela viúva me faz reconhecer o olhar Dele sobre a minha própria vida. Me ajuda a experimentar que Deus não me cobra nada, mas tem sede da minha vida. Tem sede de tudo que tenho pra viver.

Como meditávamos semanas atrás, tudo é tão transitório. Passa tão rápido. Há algumas semanas um tio sofreu uma fratura, jogando peteca. E todos que estávamos presentes pensávamos: como a vida de umas pessoas pode mudar tanto em tão pouco tempo? Os planos para os próximos dois meses (tempo necessário para que ele se restabeleça e possa voltar às suas atividades normais) foram completamente alterados por um acontecimento que durou talvez menos de dois segundos (a queda).

E pensando nessa transitoriedade me sentia agradecida. Que bom que não existem situações ideais para estar com Deus. Que bom que Deus é maior do que tudo que me rodeia. Que bom que a nossa relação com Deus pode acompanhar a dinâmica da vida, a transitoriedade da vida.

Que possamos reconhecer a beleza do momento presente. Seja lá o que for que estivermos vivendo. Porque tudo que vivemos é possibilidade pra Deus se manifestar. O momento presente, com tudo que temos pra viver é a possibilidade real de diálogo com Deus. Tudo mais é ilusório. A situação ideal para orar é ilusória, a situação ideal para amar é ilusória, a situação ideal para partilhar é ilusória. Só o que temos pra viver agora é real!

E nesta oração Deus me fazia lembrar uma passagem que esteve presente a poucas semanas na liturgia.

Rm 8, 35. 38-39

Quem nos afastará do amor de Cristo: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada? Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem anjos nem potestades, nem presente nem futuro, nem poderes, nem altura nem profundidade, nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus Senhor nosso.

Que essa oração nos convença de que nada, nem ninguém poderá nunca nos afastar do Amor de Deus. Nem nós mesmos. O desejo de Deus por nossa vida nos ultrapassa.





Pollyanna, Famvd

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pistas de oração - Jesus cura dez leprosos



"Obrigado Senhor por mais um dia, obrigado Senhor que o Sol nasceu!"




Palavra de Deus – Lc 17,11-19

Jesus continuava viajando para Jerusalém e passou entre as regiões da Samaria e da Galiléia. Quando estava entrando num povoado, dez leprosos foram se encontrar com ele. Eles pararam de longe e gritaram:
- Jesus, Mestre, tenha pena de nós!
Jesus os viu e disse:
- Vão e peçam aos sacerdotes que examinem vocês.
Quando iam pelo caminho, eles foram curados. E, quando um deles, que era samaritano, viu que estava curado, voltou louvando a Deus em voz alta. Ajoelhou-se aos pés de Jesus e lhe agradeceu. Jesus disse:
- Os homens que foram curados eram dez. Onde estão os outros nove? Por que somente este estrangeiro voltou para louvar a Deus?
E Jesus disse a ele:
- Levante-se e vá. Você está curado porque teve fé.



Há dias tenho meditado a respeito da gratidão. Como é difícil pra mim, muitas vezes, me sentir agradecida. Agradecida a Deus, agradecida aos outros, agradecida a mim mesma.

Deus me fazia perceber que esse sentimento tem tudo a ver com o perfeccionismo. Mania de querer que tudo saia perfeito, que tudo saia como eu planejei. E sendo a vida inexata, dinâmica, as coisas geralmente não saem exatamente como planejamos. E a reação é de frustração, autocobrança, cobranças aos demais, cobranças a Deus. Quero que tudo saia milimetricamente conforme planejado. E como isso quase nunca é possível eu mato as pequenas conquistas, mato a gratidão em mim e nos outros.

Orando essa passagem da cura aos dez leprosos experimentava um convite de Deus a reconhecer as minhas conquistas, a reconhecer a presença Dele na minha vida, a reconhecer os caminhos por onde Ele tem me conduzido e perceber que Suas obras são perfeitas, e seus caminhos são justos. (Dt. 32, 4)

Deixar que Deus nos conduza na oração para que possamos ter a consciência de que não temos controle sobre nada, para que possamos nos reconhecer criaturas, finitas, limitadas. E aí poder encontrar liberdade. Liberdade por saber que não damos conta de tudo, que Deus não espera que demos conta de tudo! Liberdade por saber que esta vida é apenas uma pequena fração da vida que Deus nos dá, que é eterna! E assim Deus nos faz entender que tudo é relativo, tudo passa, só o Amor Dele é eterno e não nos deixa jamais! Assumir a transitoriedade da vida me faz viver com mais leveza.

É bonito perceber que embora Jesus não perca nunca a perspectiva da vida eterna, Ele jamais deixa de valorizar essa nossa vida material, terrena, finita. Não separa, é uma só vida.
Jesus poderia ter dito aos leprosos: “olha, fiquem tranqüilos, quando morrerem vocês irão para o céu e tudo ficará bem”. Mas Ele não faz isso. Sabe das conseqüências daquela doença para aqueles dez leprosos. Significava a exclusão do convívio social. Tiveram que gritar Jesus de longe, não podiam se aproximar.

Segundo os costumes da época, após a cura de uma doença como aquela, o curado deveria se apresentar aos sacerdotes, para que estes o declarassem realmente livre da doença e providenciassem para que fosse reincorporado à sociedade.

Ao enviar os dez leprosos aos sacerdotes Jesus diz implicitamente que a cura será realizada. Que possamos nesta oração reconhecer essa voz de Jesus que nos diz que no caminho encontraremos as respostas, que não tenhamos medo de caminhar até onde ele nos indica, que suas obras são perfeitas, e seus caminhos são justos.

E é no caminho que nasce a gratidão! Poder reconhecer que até mesmo a gratidão é dom de Deus! Dom que nasce se nos abrimos. E somente se nos abrimos.