%%%

domingo, 27 de dezembro de 2009

Pistas de Oração - Fuga para o Egito



Para você ganhar belíssimo Ano Novo(...)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem(...)
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)



Mt 2,13-18Fuga para o Egito


Depois que os visitantes foram embora, um anjo do Senhor apareceu num sonho a José e disse:
- Levante-se, pegue a criança e a sua mãe e fuja para o Egito. Fiquem lá até eu avisar, pois Herodes está procurando a criança para matá-la.
Então José se levantou no meio da noite, pegou a criança e a sua mãe e fugiu para o Egito. E eles ficaram lá até a morte de Herodes. Isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Eu chamei o meu filho, que estava na terra do Egito."
Quando Herodes viu que os visitantes do Oriente o haviam enganado, ficou com muita raiva e mandou matar, em Belém e nas suas vizinhanças, todos os meninos de menos de dois anos. Ele fez isso de acordo com a informação que havia recebido sobre o tempo em que a estrela havia aparecido. Assim se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito: "Ouviu-se um som em Ramá, o som de um choro amargo.
Era Raquel chorando pelos seus filhos; ela não quis ser consolada, pois todos estavam mortos."


Durante todo esse ano Deus nos deu muitas oportunidades de estarmos com Ele, de aprofundarmos a convivência, de descobrir que Ele é nosso companheiro de caminho, que Ele nasce na nossa vida a cada dia!

Que possamos na oração de hoje rever como vivemos a nossa espiritualidade nesse ano que está terminando. O que queremos mudar? O que nos ajudou e queremos manter? Em que precisamos ser mais fiéis? Reconhecer os momentos em que fui fiel ao que Deus me marcou e descobrir os frutos dessa fidelidade.

Este é o tempo dos propósitos, dos planos para o próximo ano, das promessas... Tomara que possa ser um tempo de verdadeira esperança, de verdadeiras promessas, de mudança de direção mesmo, se for o caso. Ou talvez de firmeza na direção em que estamos. Que possamos fazer todos esses planos e propósitos com Deus, e perceber como isso faz toda a diferença.

Que a nossa oração de hoje possa ser descobrir os meios necessários para manter a vida do Menino. Durante todo esse ano, e no decorrer de nossa vida, a experiência de Deus foi se forjando em nós, a presença de Deus em nossa vida foi se estabelecendo. E nesse momento estamos em um ponto crucial de nossas vidas: reconhecer o que mais nos tem ajudado e o que nos tem atrapalhado a viver a fé, a cuidar desse Menino que nos habita.

Talvez, como Maria e José, seja necessário fugir. Fugir de certas conversas, de certos ambientes, de certas atitudes, de determinadas posturas diante dos acontecimentos.

Poder reconhecer que Deus nos chama do meio de cada realidade em que estamos inseridos, como fez com José em seu sonho, e nos dá uma ordem. Para José, a ordem foi muito clara: “Levante-se, pegue a criança e sua mãe, e fuja!” Que possamos deixar que Deus nos ordene em cada situação. Que Ele nos dê ordem em todos os sentidos. Que coloque ordem em nossas vidas, em nossas bagunças, em nossa mente, em nossos sentimentos.

É realmente diferente quando planejamos a vida com Deus e quando fazemos isso sem Ele. Esse exercício me faz reconhecer como Deus é dinâmico e dá dinamismo a minha vida. Pra cada situação Ele tem uma “ordem” diferente a dar. Nessa oração, a minha experiência foi reconhecer que de cada situação que tenho que viver – trabalho, família, casamento, comunidade, amigos – brota uma “ordem” diferente.

Pra José Deus disse: “Fuja!”. Talvez para muitos de nós, o que Ele tem a dizer é: “Pare de fugir! Encare de frente essa situação!” E é isso que faz com que o convívio com Deus seja maravilhoso. Deus não nos trata em série. O diálogo é pessoal, a cada um e a cada uma de nós Ele tem algo específico a dizer. Para cada situação que estamos vivendo Ele tem palavras e ordens específicas.
Nessa oração me ajudava muito a imagem da sarça ardente, que convido vocês a contemplar também.

Ex 3, 1-4

Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Um dia em que conduzira o rebanho para além do deserto, chegou até a montanha de Deus, Horeb.
O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía) do meio a uma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia.
“Vou me aproximar, disse ele consigo, para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome.”
Vendo o Senhor que ele se aproximou para ver, chamou-o do meio da sarça: “Moisés, Moisés!” “Eis-me aqui!” respondeu ele.

No meio das situações corriqueiras (sarça), em tudo que tenho que viver, em todos os ambientes em que devo estar no próximo ano, em tudo o que planejo realizar, há uma chama, há um chamado de Deus. Entremeado as minhas propostas está a proposta de Deus. E eu só pedia a Deus sensibilidade e fidelidade para perceber a chama (que nunca se apaga, ainda que eu não veja ou não reconheça) e responder como Moisés : Eis-me aqui!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pistas de Oração - Maria visita Isabel


“Levanta-te porque passou o inverno.”

Ouvi, pois chega o meu amado saltando sobre os montes, pulando pelas colinas!
Meu amado é como um gamo, meu amado é um filhote de cerva. Vede: parou atrás da parede, espreita pelas janelas, olha pelas grades.
Meu amado fala e me diz: “Levanta-te amada minha, vem a mim! Porque passou o inverno, as chuvas pararam e se foram, brotam flores na várzea, chega o tempo de podar, o arrulho da pomba está se ouvindo nos campos; despontam os frutos na figueira, a vinha em flor difunde perfume. Levanta-te amada minha, formosa minha, vem a mim! Pomba minha que aninhas nos buracos do rochedo, nas gretas do barranco, deixa-me ver tua figura, deixa-me escutar a tua voz, porque é muito doce a tua voz e tua figura é formosa. (Cc 2, 8-14)



Que bom começar a oração com essas palavras de Deus! Que possamos acreditar que Ele realmente anseia por nossa voz. Que a nossa voz é doce para Ele.

Estamos nos aproximando do Natal, uma data muito importante para os que temos fé. O convite para oração de hoje é checar os nossos preparativos. Que nos falta para a comemoração? Pra quem estamos preparando a festa? Quem será o centro?

Lc 1, 39-45 – Maria visita Isabel
Alguns dias depois, Maria se aprontou e foi depressa para uma cidade que ficava na região montanhosa da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança se mexeu na barriga dela. Então, cheia do poder do Espírito Santo, Isabel disse bem alto:
- Você é a mais abençoada de todas as mulheres, e a criança que você vai ter é abençoada também! Quem sou eu para que a mãe do meu Senhor venha me visitar?! Quando ouvi você me cumprimentar, a criança ficou alegre e se mexeu dentro da minha barriga. Você é abençoada, pois acredita que vai acontecer o que o Senhor lhe disse.

A liturgia de hoje nos mostra a disponibilidade de Maria, que ao invés de se ocupar apenas da sua realidade vai ao encontro da prima. Vai levar ânimo e esperança.

E é a isso que nós cristãos e cristãs estamos chamados (as): levar esperança no meio em que estamos porque carregamos dentro o Messias, o Salvador. Porque somos moradas de Deus. Porque Deus nos habita e nos impulsiona a amar, e a cada Natal nos convida a renovar os ânimos, a reassumir esse lugar na história de salvação.

Acho muito bonito quando Isabel diz: Você é abençoada, pois acredita que vai acontecer o que o Senhor lhe disse. Abençoada porque acredita! Parece pouco, né? Ser reconhecida abençoada simplesmente porque acredita. Talvez para nós fosse mais confortável ouvir: “Abençoada porque não tem problemas”, “Abençoada porque já tem a vida resolvida”, “Abençoada porque tem dinheiro.”

Mas essa frase me chamava a atenção porque reconhecia nela um chamado de Deus a descobrir a alegria de acreditar. Acreditar que as coisas podem ser diferentes, que as relações podem ser mais humanas, que Ele está presente em minha vida!

O encontro com Deus me tira do centro e coloca outras realidades: realidades mundiais, realidades do país, realidades de outras pessoas. Mas não coloca essas realidades na minha vida me dando a incumbência de resolvê-las, mas de tê-las presentes. De me fazer um com o mundo. De acreditar que o Amor tem a última palavra também nessas realidades.

Viver centrada em mim mesma (o) me leva a duas atitudes extremas: ignorar o outro ou achar que vou resolver a vida do outro. Deus não me chama a nada disso. Me chama a considerar o outro como outro, diferente de mim. A reconhecer que o mundo é muito mais do que eu. A reconhecer o meu lugar do mundo, o meu lugar na minha família, na minha comunidade, no meu trabalho.

Deus nos chama a ir ao encontro do outro, sabendo-se morada de Deus, para afetar e se deixar afetar. Na passagem diz que ao ouvir a saudação de Maria o filho de Isabel saltou de alegria em seu ventre. Maria vai ao encontro de Isabel e marca a vida dela, provoca reações. E também se deixa afetar. Na continuação da passagem temos o cântico de louvor de Maria (Lc 1, 46-55). O encontro de Maria com Isabel arranca dela uma profunda gratidão.

Que a nossa oração seja essa preparação para viver o Natal com a alegria de quem acredita em todas as coisas que o Senhor nos diz.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Retiro de Advento - Terceiro Dia - Tu Serás Tenda de Encontro!



Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela.
E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.
Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina.
Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou.
Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura. Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino. Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores. Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.
Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito. (Lc 2, 1-20)

Nestes dias temos meditado sobre o que significa ser morada de Deus, que implicações concretas isso traz para minha vida. Reconhecer que Jesus nasce em nossa vida a cada dia é reconhecer que temos o mesmo potencial para amar que Ele. Podemos ter a vida centrada no Amor, como Ele teve.

Cada dia podemos acolher a vinda de Jesus, na Eucaristia, nas relações, na oração. Deus quer nos converter em sacrário vivo, em tenda de encontro. Se abro o coração para que Jesus faça nele sua morada, me transformo em lugar de encontro de Deus com o outro. Que quem se aproxima da minha vida possa reconhecer a Deus.

Depois de meditar sobre essa vida que levamos dentro, depois de reconhecê-la, Deus nos convida a deixar que essa vida saia.

Se percorrermos a vida de Jesus, poderemos perceber que, desde o Seu nascimento, todos que se encontraram com Ele e se deixaram tocar, e se abriram, mudaram de vida. A começar pelos pastores, que voltaram glorificando e louvando a Deus. Zaqueu restituiu a todos a quem defraudou e deu o que ainda lhe restou aos pobres. A mulher samaritana deixou o balde e foi contar aos vizinhos tudo que Jesus havia feito em sua vida:

A mulher deixou o cântaro, foi à aldeia e disse aos vizinhos: “Vinde ver um homem que me contou o que fiz: será ele o Messias?” (...) Nessa aldeia muitos creram nele pelo que a mulher contara afirmando que lhe tinha dito tudo que fizera. Os samaritanos ocorreram a ele e lhe pediam que ficassem com eles. Permaneceu ai dois dias, e muitos outros creram por causa das palavras dele; e diziam à mulher: “Já não cremos pelo que nos contastes, pois nós mesmos escutamos e sabemos que este é realmente o salvador do mundo. (Jo 4, 28-29. 39-42)

Outro dia uma colega do trabalho me dizia que queria fazer um trabalho social, colaborar na Paróquia, fazer alguma coisa. Mas que estava sem tempo, esperando que a vida dela se “ajeitasse”, ficasse mais tranqüila. Eu disse a ela que achava que esse dia nunca ia chegar...

As pessoas que se encontraram com Jesus sentiram essa mesma inquietação. E responderam ao chamado não porque não tivessem mais o que fazer, mas porque sentiam que não podiam mais se calar diante do que haviam presenciado. Sentiam que não podiam se acomodar diante do tamanho Amor expresso por Jesus.

A passagem diz que quando o anjo do Senhor apareceu os pastores vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite. Os pastores não foram até Belém, atrás de Jesus, porque estavam entediados ou porque o trabalho deles não fosse importante. Foram porque se sentiram chamados pelo Senhor. Foram porque intuíram que a vida deles poderia ir além, que os horizontes poderiam ser ampliados.

O mesmo se passou com Zaqueu e a Samaritana. Ambos tinham uma atividade. Não estavam à toa! Mas experimentaram um Amor tão profundo que não conseguiram fazer outra coisa a não ser anunciar, com a vida e com as palavras, que tinham encontrado Alguém especial, que tinham se encontrado com o Amor.

O convite para nosso último dia de retiro é reconhecer que Deus passou por aqui nesses dias. Que tivemos a chance de nos encontrar com Ele e de deixar que faça morada em nossa vida, em nosso coração. Será que nesses dias Jesus encontrou lugar na hospedaria? Ou ainda está no presépio?

Não tenhamos medo de responder essa pergunta. Se o encontro com Jesus ainda não aconteceu ainda temos o dia de hoje! Ainda podemos oferecer a Jesus a nossa vida, para que Ele faça sua morada.

E depois dessa experiência que possamos nos deixar tocar pelo desejo de Deus de que sejamos Tenda de Encontro com Ele para muitos. Por meio da nossa vida, Deus pode nascer no coração de muitos. Por meio das nossas atitudes é possível que reconheçam a presença de Deus.

O Senhor nos chama a sermos sinais do Amor no mundo, na situação em que estamos, sem buscar situações ideais. Sou chamada (o) a ser sinal do amor na minha família, com meu marido (esposa), filhos, filhas. Sou chamada(o) a ser sinal do amor na minha comunidade, com meus irmãos e irmãs de comunidade, na minha vocação. Sou chamada (o) a ser sinal do amor no meu trabalho, entre os meus amigos e amigas...

E quando vamos deixando que o Amor de Deus se manifeste por meio da nossa vida vamos fazendo crescer a esperança, em nós mesmos e nos outros. Advento é tempo de esperança é tempo de acreditar no poder que tem o amor encarnado, o amor feito vida, o amor que é concreto.

Há algum tempo assisti o depoimento de uma pessoa num programa de TV que me emocionou e me marcou muito. Foi o depoimento de um médico especialista em transplantes. Ele contou várias histórias impressionantes e em uma delas ele disse que houve um acidente envolvendo mãe e filha. As duas foram hospitalizadas e a filha, estando gravemente ferida, não suportou e teve morte cerebral. O médico se dirigiu ao quarto da mãe para dar a notícia. Imediatamente após saber da notícia a mãe perguntou: “Doutor, ela não pode doar nenhum órgão?” O médico ficou surpreso com a reação da senhora. Como é possível que no meio de tanta dor alguém seja capaz de tanta solidariedade, tanto desprendimento? Respondeu que sim e citou os órgãos que seriam passíveis de doação. A mulher replicou: “Não se pode doar o coração?” O médico explicou que não seria possível, porque a menina havia tomado medicamentos muito fortes e o coração estava comprometido. A mulher disse: “Que pena, ela tinha um coração tão bom...” E ao terminar de contar o médico disse: “Ouço dizer que a maldade não tem limites, mas a minha experiência como médico me permite dizer que a bondade também não!”

E sabem por que a bondade não tem limites? Porque Jesus nos deu Seu Espírito que nos dá a capacidade de amar sem limites. E isso é o Natal: Deus que se faz homem para, entre outras coisas, nos mostrar que o Amor e a bondade não têm limites!




terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Retiro de Advento - Segundo Dia: Não sabem que são templo de Deus?

No primeiro dia de retiro fomos convidados a descobrir ou redescobrir que Deus quer fazer morada em nossa vida. Que a encarnação de Deus, o nascimento de Jesus nos revela que Deus está muito próximo a nós. Deus já se colocou no meio de nós! Deus já se colocou em nós!

Mas será que somos conscientes disso? Em I Co 3, 16 Paulo questiona à Comunidade de Corinto: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” Que possamos nos questionar também. Como está a minha vida? Tenho agido como quem é consciente de que é templo de Deus?

De verdade, ainda não sabemos que somos morada de Deus... Ainda vivemos como se Deus estivesse longe de nós, nas alturas. Ainda esperamos circunstâncias especiais para falar com Ele. Ainda esperamos situações ideais para conviver com Ele. Ainda esperamos que Deus se manifeste de maneira espetacular, quase mágica.

Ainda escolhemos os assuntos a tratar com Deus, como se com Ele não fosse possível falar de tudo! Ainda reservamos espaços em que Deus não entra, não participa. Podendo estar sempre acompanhados ainda vivemos sozinhos. Ainda não vivemos plenamente essa verdade. Ainda vivemos na ignorância, ainda desvalorizamos e desprezamos a nossa vida, nosso corpo, o templo de Deus.

Deus nos convida hoje a prestar atenção no nosso corpo, que é a nossa possibilidade de se manifestar enquanto ser vivente. Eu não TENHO um corpo, SOU um corpo. Assumir isso, com todas as conseqüências que isso traz. Assumir tudo isso porque Deus mesmo assumiu.
Ele, apesar de sua condição divina, não fez alarde de ser igual a Deus, mas se esvaziou de si e tomou a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens, mostrando-se em figura humana, humilhou-se. (Fl. 2, 6-7)

Jesus se despojou da condição divina. Assumiu a contingência. E nós, muitas vezes, desejamos ser super heróis, jamais adoecer, jamais nos cansar, jamais errar, jamais perder a razão. Desejamos não envelhecer, não sentir fome (tenho que parar pra comer e isso me faz perder tempo), ter tempo pra tudo, fazer tudo, não precisar fazer escolhas...

Jesus se despojou da condição divina e nós não aceitamos a nossa condição humana... Muitas vezes não aceitamos os nossos limites. Não aceitamos os limites do outro. Assim, a convivência com Deus, com o outro e conosco fica comprometida.

Olhar pra vida de Jesus me faz perceber que Deus não poupou nada para estar perto de nós. A Palavra se fez carne e habitou entre nós. (Jo 1, 14) E habitou entre nós sendo submetido a tudo a que nós somos submetidos. Nascido de uma mulher (Gl 4,4), e obediente até a morte (Fl 2,8). Jesus não foi poupado de nenhuma etapa da vida: nasceu, cresceu, viveu e morreu. Sendo de condição divina respeitou o ciclo da vida humana, perecível.

Quantas vezes vivemos querendo pular etapas da vida? Quantas vezes entramos em guerra contra o tempo. Contra o tempo da vida, contra o tempo do relógio, contra o tempo do dia a dia. Quantas vezes queremos viver uma fé que é anestesia, que é calmante. Na vida de Jesus não houve anestesia... não houve calmante. Viveu tudo que tinha pra viver!

Reconhecer a encarnação de Jesus significa nos reconciliar com a nossa condição. Significa que esse mundo é o lugar da salvação, que o nosso corpo é o lugar da salvação. Significa que somos um: corpo e espírito. Significa reconhecer que o meu corpo não é menos espiritual do que meu espírito.

Parece que estamos todo o tempo tentando dividir. Na tentativa de valorizar o espírito desvalorizamos o meio que meu espírito tem pra se manifestar: o meu corpo. Desvalorizamos o meio que o outro tem de se manifestar. É verdade que nem só de pão vive o ser humano, mas muitas vezes esquecemos que vive também de pão.

A encarnação de Jesus nos revela que a integração é possível. Integrar corpo e espírito é possível. Na passagem a seguir, Jesus mescla as duas percepções, o templo físico e o templo corpo.

Jo 2, 13-25
Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas.
Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas.
Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes.
Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68,10). Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?
Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias.
Os judeus replicaram: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!
Mas ele falava do templo do seu corpo.

O que encontrará Jesus hoje no meu templo? Na minha vida, no meu corpo, que é templo de Deus? Talvez encontre negociantes. Talvez me encontre negociando. Negociando comigo mesma, negociando com Ele, procurando moedas de troca para oferecer.

Como está a minha relação com Deus? Na base dos negócios, da troca, do facilismo?

Jesus quer entrar na minha vida, no meu templo para purificar, para purificar minha relação com Ele, minha relação comigo e minha relação com o outro. Purificar minha relação com o meu corpo, com os meus limites, com o meu tempo. Mesmo que pra isso seja preciso espalhar muitas coisas pelo chão. Mesmo que pra isso seja preciso rever a maneira como tenho vivido a minha fé, deixar cair por terra. Pode ser que seja preciso rever a minha relação comigo, e também a relação com os outros.

O convite para esse segundo dia de retiro é deixar que Jesus vá reconstruindo o templo da maneira que Ele achar melhor. Ainda que pra isso seja preciso destruir. Destruir preconceitos, destruir moralismos, destruir tudo aquilo que enrijece as relações e me impede de amar em profundidade.

domingo, 29 de novembro de 2009

Retiro de Advento - 1o Dia - Estou batendo à porta


Vê: estou batendo à porta. Se alguém escuta meu chamado e abre a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo. (Ap. 3,20)

É maravilhoso que a Liturgia nos conceda um tempo, o Advento, para aprofundar o que vamos celebrar daqui alguns dias: o Natal, o Nascimento de Jesus. Que possamos nos preparar para esse evento de tal forma que a celebração seja realmente a vivência do evento celebrado.

E para viver com intensidade esse evento, o Nascimento de Jesus, a encarnação de Deus, precisamos entrar na verdade que esse evento nos revela: Deus quer morar na nossa vida.

É bonito perceber na Bíblia que Deus desde sempre quis ficar perto do ser humano. Desde o antigo testamento podemos perceber isso. Em Ex 33, 7-11a diz que Moisés armou a tenda de Deus e que essa tenda foi chamada “Tenda do encontro”. Quem quisesse consultar o Senhor deveria se dirigir à tenda. E diz que o Senhor falava com Moisés face a face, como se falam dois amigos.

Depois acontece a construção do Templo (I Re 6-7). O templo era o lugar onde Deus morava. O Deus peregrino, que acompanhou seu povo peregrino, se faz agora Deus urbano, fixando residência entre seu povo.* Deus chega a dizer: “Eu morarei com vocês nesse lugar.” (Jr 7,3). O Templo é a casa de oração: “A minha casa será casa de oração para todos os povos.” (Is 56, 7).

Neste retiro Deus quer nos falar face a face. Quer no revelar Sua proximidade na nossa vida. Quer nos mostrar como desde sempre quis estar conosco. Que possamos nesse momento percorrer rapidamente a história da nossa vida e perceber como Deus nos cercou, como colocou em nossas vidas tantas pessoas que nos levariam a Ele. Lembrar de tantas ocasiões e situações em que pudemos perceber a Sua presença.

E depois de reconhecer tudo isso poder se abrir a uma revelação ainda maior. A revelação que o nascimento de Jesus nos traz: Deus não quer apenas ficar perto do ser humano, mas se fazer humano. Quer fazer do ser humano, de cada um de nós, sua morada. Deus quer colocar sua morada não somente entre nós, mas em nós.

Que possamos nesse retiro abraçar essa realidade: Posso manter-me constantemente na presença de Deus porque Ele está em mim. Não preciso mais viver sozinha (o) tantas situações, boas ou ruins. Posso dividir com Alguém que me habita e, por isso, está sempre comigo, tudo aquilo que me custaria muito viver desacompanhada (o).

E para reconhecer esse Deus que me habita, que escolhe como casa o meu coração, a minha vida, preciso também eu mesma (o) conhecer essa casa. Procurando Deus vamos nos conhecendo. Que esse momento de oração possa ser oportunidade para entrarmos com profundidade nessa casa, no meu coração, que muitas vezes é um mistério até mesmo pra mim.

Temos muito medo de olhar pra dentro. Fazemos muitas coisas durante o dia. Conhecemos muitas coisas, recebemos muitas informações. Mas muitas vezes não sabemos por que reagimos assim ou assado diante de determinadas situações. Ficamos tristes sem saber por quê. Felizes sem saber por quê. Ansiosos sem saber por quê. Angustiados sem saber por quê. Tudo acontece muito rápido e não tomamos consciência da nossa própria existência.

Deus quer fazer conosco um processo de conhecimento: conhecer a Ele e a mim mesma (o). E nessa aventura de viajar pra dentro de si, de se conhecer, é muito bom saber que vamos acompanhados. Muito bonita essa dinâmica que Deus estabelece em nossa vida: buscando a Deus me encontro, buscando a mim encontro Deus.

Poder descobrir como o meu desejo de encontrar a Deus comunga com o desejo de Deus de ser encontrado. A passagem a seguir fala sobre isso.

Palavra de Deus (Lc 19, 1-10)

Jesus tinha entrado em Jericó e estava passando pela cidade.
Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e muito rico.
Ele procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era baixinho.
Então ele correu à frente e subiu numa árvore para ver Jesus, que devia passar por ali.
Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”.
Ele desceu depressa, e o recebeu com alegria.
Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de um pecador!”
Zaqueu pôs-se de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.
Jesus lhe disse: “Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”.


Zaqueu desejava ver Jesus. E eu? Desejo ver Jesus? Desejo me encontrar com Ele? Sejamos sinceros. Pode ser que nesse momento não queiramos ver Jesus. Pode ser que estejamos com raiva, revoltados, confusos com certas situações que estamos vivendo. Ou talvez felizes demais, tranqüilos demais, e pensamos que nossa vida está tão boa! Não me faz falta ver Jesus. Na sociedade em que vivemos a não realização é algo terrível e, portanto, melhor nem desejar...
Mas pode ser também que estejamos sentindo que Deus está distante de nós, sentimos falta Dele. Sentimos falta de Suas palavras, de Seu olhar. Queremos vê-lo, mas nos sentimos pequenos, sentimos que existe uma multidão que nos impede. Multidão de coisas pra fazer, multidão de sentimentos, multidão de pessoas com as quais convivo, multidão de pensamentos, multidão de problemas, multidão de preocupações!

Ou pode ser ainda que estejamos tranqüilos, calmos, dispostos, aguardando Jesus que, temos certeza, vai passar.

Seja qual for a nossa situação que possamos ser conscientes dela e que não tenhamos medo de deixar brotar em nós o desejo. Esse mesmo desejo que moveu Zaqueu, que o fez subir em uma árvore para ver Jesus que passava.

Poder então reconhecer o olhar de Jesus sobre nós. Um olhar que reconhece o nosso esforço ou a falta dele. Que reconhece o nosso desejo, ou a ausência dele. Jesus não tem medo de olhar pra cima pra nos ver. Quanto medo temos de olhar pra cima! Quanto medo de reconhecer o que somos de verdade! Quanto medo de reconhecer que somos pequenos mesmo! Mas que isso não nos tira o valor porque Jesus quer se hospedar na nossa casa!

Jesus hoje nos chama pelo nome e diz: Hoje quero ficar na sua casa.

Que possamos, como Zaqueu, recebê-lo com alegria. Recebê-lo como se recebe um amigo. Apresentar-lhe a casa. Mostrar a Jesus aposentos muitas vezes desconhecidos pra nós, aqueles quartos que nos dão medo, aquele outro que anda meio bagunçado, aquele espaço que é o nosso orgulho, aquele outro em que só entramos de vez em quando e reconhecemos que precisamos entrar mais...

Que a oração de hoje seja reconhecer que Deus está a nossa porta e bate, se escutamos Seu chamado e abrimos a porta entrará e ceará conosco!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pistas de Oração - Nada poderá nos separar do Amor de Deus



Palavra de Deus – Lc 21, 1-4

Jesus estava no pátio do Templo, olhando o que estava acontecendo, e viu os ricos pondo dinheiro na caixa das ofertas. Viu também uma viúva pobre, que pôs ali duas moedinhas de pouco valor. Então ele disse:
- Eu afirmo a vocês que esta viúva pobre deu mais do que todos. Porque os outros deram do que estava sobrando. Porém ela, que é tão pobre, deu tudo o que tinha para viver.


Outro dia estava lendo um livro e a autora dizia que a ela parecia muito fácil orar quando estava com dificuldades, quando tinha problemas. E que achava muito difícil se manter em oração quando estava alegre, feliz, tranqüila. A mim, muitas vezes, se passa o contrário. As dificuldades, preocupações, problemas a resolver, ansiedades, me tiram rapidamente da presença de Deus, ou melhor, me impedem de perceber a presença Dele.

Seja qual for a dificuldade para oração, ter muito ou ter pouco, estar feliz ou estar triste, preocupadas(os) ou tranqüilas(os), essa pequena passagem tem muito a nos dizer. No fundo, não ofereço a Deus tudo o que tenho pra viver. Se tudo o que tenho pra viver neste momento são alegrias, conquistas, vitórias, que sejam oferecidas a Deus. Mas se o que tenho pra viver são preocupações, tristezas, dificuldades, que também sejam oferecidas a Deus.

Nesta oração poderíamos fazer uma composição da passagem, do lugar. Nos imaginar lá, como observadores. Tentar imaginar essa viúva, tentar imaginar a cena, imaginar o que aconteceu antes e depois.

Na minha composição aparecia uma mulher que nem sempre foi viúva. Talvez nem sempre tenha sido pobre. Se deu dois centavos agora é porque deve ter dado mais, quando tinha mais.
Ao imaginar a cena, me comove a delicadeza de Jesus, o carinho com que olha e se refere à viúva. Como acolhe o que ela tem pra dar. E imaginar tudo isso me fazia sentir muito acolhida por Ele. Me fazia perceber que Ele me acolhe a cada momento como estou. Reconhecer o olhar de misericórdia e de Amor de Jesus pela viúva me faz reconhecer o olhar Dele sobre a minha própria vida. Me ajuda a experimentar que Deus não me cobra nada, mas tem sede da minha vida. Tem sede de tudo que tenho pra viver.

Como meditávamos semanas atrás, tudo é tão transitório. Passa tão rápido. Há algumas semanas um tio sofreu uma fratura, jogando peteca. E todos que estávamos presentes pensávamos: como a vida de umas pessoas pode mudar tanto em tão pouco tempo? Os planos para os próximos dois meses (tempo necessário para que ele se restabeleça e possa voltar às suas atividades normais) foram completamente alterados por um acontecimento que durou talvez menos de dois segundos (a queda).

E pensando nessa transitoriedade me sentia agradecida. Que bom que não existem situações ideais para estar com Deus. Que bom que Deus é maior do que tudo que me rodeia. Que bom que a nossa relação com Deus pode acompanhar a dinâmica da vida, a transitoriedade da vida.

Que possamos reconhecer a beleza do momento presente. Seja lá o que for que estivermos vivendo. Porque tudo que vivemos é possibilidade pra Deus se manifestar. O momento presente, com tudo que temos pra viver é a possibilidade real de diálogo com Deus. Tudo mais é ilusório. A situação ideal para orar é ilusória, a situação ideal para amar é ilusória, a situação ideal para partilhar é ilusória. Só o que temos pra viver agora é real!

E nesta oração Deus me fazia lembrar uma passagem que esteve presente a poucas semanas na liturgia.

Rm 8, 35. 38-39

Quem nos afastará do amor de Cristo: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada? Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem anjos nem potestades, nem presente nem futuro, nem poderes, nem altura nem profundidade, nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus Senhor nosso.

Que essa oração nos convença de que nada, nem ninguém poderá nunca nos afastar do Amor de Deus. Nem nós mesmos. O desejo de Deus por nossa vida nos ultrapassa.





Pollyanna, Famvd

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pistas de oração - Jesus cura dez leprosos



"Obrigado Senhor por mais um dia, obrigado Senhor que o Sol nasceu!"




Palavra de Deus – Lc 17,11-19

Jesus continuava viajando para Jerusalém e passou entre as regiões da Samaria e da Galiléia. Quando estava entrando num povoado, dez leprosos foram se encontrar com ele. Eles pararam de longe e gritaram:
- Jesus, Mestre, tenha pena de nós!
Jesus os viu e disse:
- Vão e peçam aos sacerdotes que examinem vocês.
Quando iam pelo caminho, eles foram curados. E, quando um deles, que era samaritano, viu que estava curado, voltou louvando a Deus em voz alta. Ajoelhou-se aos pés de Jesus e lhe agradeceu. Jesus disse:
- Os homens que foram curados eram dez. Onde estão os outros nove? Por que somente este estrangeiro voltou para louvar a Deus?
E Jesus disse a ele:
- Levante-se e vá. Você está curado porque teve fé.



Há dias tenho meditado a respeito da gratidão. Como é difícil pra mim, muitas vezes, me sentir agradecida. Agradecida a Deus, agradecida aos outros, agradecida a mim mesma.

Deus me fazia perceber que esse sentimento tem tudo a ver com o perfeccionismo. Mania de querer que tudo saia perfeito, que tudo saia como eu planejei. E sendo a vida inexata, dinâmica, as coisas geralmente não saem exatamente como planejamos. E a reação é de frustração, autocobrança, cobranças aos demais, cobranças a Deus. Quero que tudo saia milimetricamente conforme planejado. E como isso quase nunca é possível eu mato as pequenas conquistas, mato a gratidão em mim e nos outros.

Orando essa passagem da cura aos dez leprosos experimentava um convite de Deus a reconhecer as minhas conquistas, a reconhecer a presença Dele na minha vida, a reconhecer os caminhos por onde Ele tem me conduzido e perceber que Suas obras são perfeitas, e seus caminhos são justos. (Dt. 32, 4)

Deixar que Deus nos conduza na oração para que possamos ter a consciência de que não temos controle sobre nada, para que possamos nos reconhecer criaturas, finitas, limitadas. E aí poder encontrar liberdade. Liberdade por saber que não damos conta de tudo, que Deus não espera que demos conta de tudo! Liberdade por saber que esta vida é apenas uma pequena fração da vida que Deus nos dá, que é eterna! E assim Deus nos faz entender que tudo é relativo, tudo passa, só o Amor Dele é eterno e não nos deixa jamais! Assumir a transitoriedade da vida me faz viver com mais leveza.

É bonito perceber que embora Jesus não perca nunca a perspectiva da vida eterna, Ele jamais deixa de valorizar essa nossa vida material, terrena, finita. Não separa, é uma só vida.
Jesus poderia ter dito aos leprosos: “olha, fiquem tranqüilos, quando morrerem vocês irão para o céu e tudo ficará bem”. Mas Ele não faz isso. Sabe das conseqüências daquela doença para aqueles dez leprosos. Significava a exclusão do convívio social. Tiveram que gritar Jesus de longe, não podiam se aproximar.

Segundo os costumes da época, após a cura de uma doença como aquela, o curado deveria se apresentar aos sacerdotes, para que estes o declarassem realmente livre da doença e providenciassem para que fosse reincorporado à sociedade.

Ao enviar os dez leprosos aos sacerdotes Jesus diz implicitamente que a cura será realizada. Que possamos nesta oração reconhecer essa voz de Jesus que nos diz que no caminho encontraremos as respostas, que não tenhamos medo de caminhar até onde ele nos indica, que suas obras são perfeitas, e seus caminhos são justos.

E é no caminho que nasce a gratidão! Poder reconhecer que até mesmo a gratidão é dom de Deus! Dom que nasce se nos abrimos. E somente se nos abrimos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pistas de Oração - Jesus cura a mulher encurvada


Palavra de Deus – Lc 13,10-17

Certo sábado, Jesus estava ensinando numa sinagoga. E chegou ali uma mulher que fazia dezoito anos que estava doente, por causa de um espírito mau. Ela andava encurvada e não conseguia se endireitar. Quando Jesus a viu, ele a chamou e disse: - Mulher, você está curada. Aí pôs as mãos sobre ela, e ela logo se endireitou e começou a louvar a Deus. Mas o chefe da sinagoga ficou zangado porque Jesus havia feito uma cura no sábado. Por isso disse ao povo: - Há seis dias para trabalhar. Pois venham nesses dias para serem curados, mas, no sábado, não! Então o Senhor respondeu: - Hipócritas! No sábado, qualquer um de vocês vai à estrebaria e desamarra o seu boi ou o seu jumento a fim de levá-lo para beber água. E agora está aqui uma descendente de Abraão que Satanás prendeu durante dezoito anos. Por que é que no sábado ela não devia ficar livre dessa doença? Os inimigos de Jesus ficaram envergonhados com essa resposta, mas toda a multidão ficou alegre com as coisas maravilhosas que ele fazia.

Na semana passada falávamos a respeito de tocar e nos deixar tocar pelo melhor de Deus. De descobrir que Deus não nos dá esmolas, nos dá sua própria vida.

Talvez hoje nos sintamos como essa mulher, encurvada. Sentimos o peso dos problemas, das responsabilidades, das relações mal resolvidas. Sentimos pesos que são nossos e muitas vezes aqueles que não são também. Sentimos pesos que nos deixamos colocar por não deixar claras certas coisas, por não dialogar, por não definir qual é o nosso espaço na vida do outro. Carregamos pesos por querer viver a vida do outro. Por querer ter tudo resolvido, por não ter paciência.

E diz a passagem que Jesus a viu. Jesus nos vê hoje, assim como nos encontramos e nos chama pra dizer que é possível estar curados (as). Jesus quer nos ver livres desses pesos, dessas amarras. Nos convida a olhar pra vida dele e reconhecer como ele viveu cada uma dessas situações que nos pesam. Nos chama a sermos livres com Ele.

E como alcançar essa liberdade? Atingimos essa liberdade à medida que a Palavra de Deus vai entrando em nossas vidas. À medida que a Palavra de Deus vai sendo amassada junto com a nossa vida e nossa vida vai sendo amassada junto com a Palavra pra formar uma única massa.
E como a Palavra de Deus entra e se mistura a nossa vida? Por meio da oração. Por meio da leitura orante da Bíblia. Tem uma passagem que diz que “a Palavra de Deus é mais cortante que espada de dois gumes; penetra até a separação de alma e espírito, articulações e medula, e discerne sentimentos e pensamentos do coração”. (Hb 4,12)

Ter a Palavra misturada à vida não significa que seremos poupados (as) de sofrimentos. E bem no fundo, acho que é isso que a gente espera... O que a Palavra nos dá é sentido pra viver o que tivermos que viver e a certeza de que estamos comungando com a vida de Cristo: paixão, morte e ressurreição. Ter a Palavra misturada à vida nos dá a esperança da ressurreição em todos os processos que vivemos.

Lendo a passagem da mulher encurvada pensava porque Jesus teve tanta urgência em curá-la. Poderia ter realmente deixado para o dia seguinte, já que pela lei daquele tempo e daquele povo era proibido realizar qualquer trabalho no sábado.

Jesus relativiza o valor do sábado. Quer ressignificar a lei. Diz que o ser humano é mais importante do que o sábado. A vida é mais importante. E faz uma comparação muito bonita quando diz: qualquer um de vocês vai à estrebaria e desamarra o seu boi ou o seu jumento a fim de levá-lo para beber água. Sem água esses animais morreriam. A mulher provavelmente não morreria se ficasse mais um dia com aquele espírito, já havia ficado 18 anos. Com essa comparação eu entendia que Jesus valoriza nossos desejos. Valoriza tanto quanto valoriza nossas necessidades fisiológicas. Quer saber o que se passa em nosso interior.

Interessante que a mulher não pede pra ser curada. É Jesus quem se adianta e chama por ela. Nesse sentido, orar essa passagem me faz experimentar o quanto Deus me supera.

E diz que a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus. Que nessa oração possamos exercitar também o dom da gratidão. Aprender a reconhecer tudo de bom que nos acontece e a louvar a Deus por tudo que vivemos.

Buscamos Deus em nós e podemos encontrá-lo em nós, mas é muito bom reconhecer que Ele nos supera!

Liturgia da Semana:
27/10 – Rm 8,18-25 / Sl 126 / Lc 13, 18-21
28/10 – Ef 2, 19-22 / Sl 19A / Lc 6, 12-19
29/10 – Rm 8, 31b-39 / Sl 109 / Lc 13, 31-35
30/10 – Rm 9,1-5 / Sl 147B/ Lc 14, 1-6
31/10 – Rm 11, 1-2a / Sl 94 / Lc 14, 1.7-11

domingo, 18 de outubro de 2009

Pistas de oração - Vim para que tenham vida em abundância


“A Palavra de Deus é viva e eficaz, discerne sentimentos e pensamentos do coração.”
(Hb. 4,12)

Liturgia da Semana:

20/10 – Rm 5,12.15b.17-19.20b-21 / Sl 40 / Lc 12, 35-38
21/10 – Rm 6, 12-18 / Sl 124 / Lc 12, 39-48
22/10 – Rm 6, 19-23 / Sl 1 / Lc 12, 49-53
23/10 – Rm 7, 18-25 / Sl 119 66.68. 76-77. 93-94 / Lc 12, 54-59
24/10 – Rm 8, 1-11 / Sl 24 / Lc 13, 1-9

Palavra de Deus – Lc 12,13-21

Um homem que estava no meio da multidão disse a Jesus: - Mestre, mande o meu irmão repartir comigo a herança que o nosso pai nos deixou. Jesus disse: - Homem, quem me deu o direito de julgar ou de repartir propriedades entre vocês? E continuou, dizendo a todos: - Prestem atenção! Tenham cuidado com todo tipo de avareza porque a verdadeira vida de uma pessoa não depende das coisas que ela tem, mesmo que sejam muitas. Então Jesus contou a seguinte parábola: - As terras de um homem rico deram uma grande colheita. Então ele começou a pensar: "Eu não tenho lugar para guardar toda esta colheita. O que é que vou fazer? Ah! Já sei! - disse para si mesmo. - Vou derrubar os meus depósitos de cereais e construir outros maiores ainda. Neles guardarei todas as minhas colheitas junto com tudo o que tenho. Então direi a mim mesmo: 'Homem feliz! Você tem tudo de bom que precisa para muitos anos. Agora descanse, coma, beba e alegre-se.' " Mas Deus lhe disse: "Seu tolo! Esta noite você vai morrer; aí quem ficará com tudo o que você guardou?" Jesus concluiu: - Isso é o que acontece com aqueles que juntam riquezas para si mesmos, mas para Deus não são ricos.


Essa passagem me faz pensar como muitas vezes vamos para a oração para resolver pequenas pendências e deixamos escapar o dom maior de Deus.

Isso não significa que o tema que levamos para oração seja algo teórico ou pouco importante pra nós. No caso da passagem, o homem levava um problema real e de muita importância. Herança para a cultura em que o texto foi escrito significava muito, dela dependia inclusive a perpetuação daquela família.

É verdade que os problemas que levamos para oração também são reais e pode ser que a nossa vida dependa em parte da resolução e do correto encaminhamento deles. Mas no afã de resolver problemas perdemos o melhor de Deus! Somos muitas vezes tão objetivas (os) que “aguamos” o Amor.

É bonito perceber como Jesus não deixa passar a oportunidade de falar do mais importante, de revelar que a vida é muito mais do que posses e bens. Jesus não perde a oportunidade de aprofundar a conversa, não fica no superficial.

Jesus vai à raiz do problema, vai à raiz dos problemas sociais que vivemos hoje. Não faltam riquezas no mundo, falta partilha. Jesus alerta sobre a imposição do ter sobre o ser. Me alerta sobre a ambição que me separa dos meus companheiros de jornada, que me leva a não pensar no outro, a pensar só em mim mesma (o).

Se nos abrimos, um passo de profundidade também pode ser dado na nossa oração. É normal que nos aproximemos de Deus com nossas preocupações, nossos problemas do dia a dia, e isso é muito bom! Como disse Pedro certa vez a Jesus: “Senhor, a quem iremos?” (Jo 6,68a) Com quem partilhar minha vida? A quem recorrer quando “a noite se acerca e escurece o caminho”? O Senhor é esse com quem posso partilhar TUDO!

Mas que bom seria se não parássemos por aí. Se tivéssemos a coragem para avançar e reconhecer, como Pedro faz na continuidade do versículo: “Tu tens palavras de vida eterna.” (Jo 6,68b) Que possamos reconhecer que o Senhor tem palavras de vida eterna, que o Senhor quer nos falar do mais profundo que há em nós. Que possamos partilhar com o Senhor nossos desejos, mesmo aqueles que ainda nem sabemos ao certo identificar.

Que nossa oração de hoje possa ser descobrir que Deus não nos dá coisas, mas se dá! Nos dá sua própria vida que é eterna!





sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Atividades


Grupo de Jovens


Grupo que reúne jovens de 15 a 20 anos. O grupo realiza atividades diversas que têm por objetivo ajudar aos participantes a trilhar um caminho de desenvolvimento humano e espiritual. Por meio de uma linguagem jovem e dinâmica busca criar um ambiente em que se possa aprender a integrar fé e vida.
Para mais informações entre em contato:
Noelia: noeliacausa@gmail.com

Grupo de Mulheres (Santa Luzia e Belo Horizonte)

Grupo de oração e partilha de fé que se reúne todas as semanas.
Santa Luzia: Segunda-feira, 15h
Belo Horizonte: Quinta-feira, 15h



Gupo de Casais

Grupo de partilha de fé e oração composto por casais que pretendem viver o casamento e a vida em família fundamentos na Palavra de Deus. O grupo se reúne aos primeiros e terceiros sábados de cada mês, às 16h.
Para mais informações entre em contato: Marilene e Agostinho: agostinhoaugusto@uol.com.br

Grupo de Noivos

Para as pessoas interessadas em aprofundar na vivência da relação a dois, segundo os valores do Cristianismo.
Para mais informações entre em contato:
Landri: landriporto@hotmail.com