No primeiro dia de retiro fomos convidados a descobrir ou redescobrir que Deus quer fazer morada em nossa vida. Que a encarnação de Deus, o nascimento de Jesus nos revela que Deus está muito próximo a nós. Deus já se colocou no meio de nós! Deus já se colocou em nós!
Mas será que somos conscientes disso? Em I Co 3, 16 Paulo questiona à Comunidade de Corinto: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” Que possamos nos questionar também. Como está a minha vida? Tenho agido como quem é consciente de que é templo de Deus?
De verdade, ainda não sabemos que somos morada de Deus... Ainda vivemos como se Deus estivesse longe de nós, nas alturas. Ainda esperamos circunstâncias especiais para falar com Ele. Ainda esperamos situações ideais para conviver com Ele. Ainda esperamos que Deus se manifeste de maneira espetacular, quase mágica.
Ainda escolhemos os assuntos a tratar com Deus, como se com Ele não fosse possível falar de tudo! Ainda reservamos espaços em que Deus não entra, não participa. Podendo estar sempre acompanhados ainda vivemos sozinhos. Ainda não vivemos plenamente essa verdade. Ainda vivemos na ignorância, ainda desvalorizamos e desprezamos a nossa vida, nosso corpo, o templo de Deus.
Deus nos convida hoje a prestar atenção no nosso corpo, que é a nossa possibilidade de se manifestar enquanto ser vivente. Eu não TENHO um corpo, SOU um corpo. Assumir isso, com todas as conseqüências que isso traz. Assumir tudo isso porque Deus mesmo assumiu.
Ele, apesar de sua condição divina, não fez alarde de ser igual a Deus, mas se esvaziou de si e tomou a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens, mostrando-se em figura humana, humilhou-se. (Fl. 2, 6-7)
Jesus se despojou da condição divina. Assumiu a contingência. E nós, muitas vezes, desejamos ser super heróis, jamais adoecer, jamais nos cansar, jamais errar, jamais perder a razão. Desejamos não envelhecer, não sentir fome (tenho que parar pra comer e isso me faz perder tempo), ter tempo pra tudo, fazer tudo, não precisar fazer escolhas...
Jesus se despojou da condição divina e nós não aceitamos a nossa condição humana... Muitas vezes não aceitamos os nossos limites. Não aceitamos os limites do outro. Assim, a convivência com Deus, com o outro e conosco fica comprometida.
Olhar pra vida de Jesus me faz perceber que Deus não poupou nada para estar perto de nós. A Palavra se fez carne e habitou entre nós. (Jo 1, 14) E habitou entre nós sendo submetido a tudo a que nós somos submetidos. Nascido de uma mulher (Gl 4,4), e obediente até a morte (Fl 2,8). Jesus não foi poupado de nenhuma etapa da vida: nasceu, cresceu, viveu e morreu. Sendo de condição divina respeitou o ciclo da vida humana, perecível.
Quantas vezes vivemos querendo pular etapas da vida? Quantas vezes entramos em guerra contra o tempo. Contra o tempo da vida, contra o tempo do relógio, contra o tempo do dia a dia. Quantas vezes queremos viver uma fé que é anestesia, que é calmante. Na vida de Jesus não houve anestesia... não houve calmante. Viveu tudo que tinha pra viver!
Reconhecer a encarnação de Jesus significa nos reconciliar com a nossa condição. Significa que esse mundo é o lugar da salvação, que o nosso corpo é o lugar da salvação. Significa que somos um: corpo e espírito. Significa reconhecer que o meu corpo não é menos espiritual do que meu espírito.
Parece que estamos todo o tempo tentando dividir. Na tentativa de valorizar o espírito desvalorizamos o meio que meu espírito tem pra se manifestar: o meu corpo. Desvalorizamos o meio que o outro tem de se manifestar. É verdade que nem só de pão vive o ser humano, mas muitas vezes esquecemos que vive também de pão.
A encarnação de Jesus nos revela que a integração é possível. Integrar corpo e espírito é possível. Na passagem a seguir, Jesus mescla as duas percepções, o templo físico e o templo corpo.
Jo 2, 13-25
Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas.
Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas.
Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes.
Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68,10). Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?
Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias.
Os judeus replicaram: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!
Mas ele falava do templo do seu corpo.
O que encontrará Jesus hoje no meu templo? Na minha vida, no meu corpo, que é templo de Deus? Talvez encontre negociantes. Talvez me encontre negociando. Negociando comigo mesma, negociando com Ele, procurando moedas de troca para oferecer.
Como está a minha relação com Deus? Na base dos negócios, da troca, do facilismo?
Jesus quer entrar na minha vida, no meu templo para purificar, para purificar minha relação com Ele, minha relação comigo e minha relação com o outro. Purificar minha relação com o meu corpo, com os meus limites, com o meu tempo. Mesmo que pra isso seja preciso espalhar muitas coisas pelo chão. Mesmo que pra isso seja preciso rever a maneira como tenho vivido a minha fé, deixar cair por terra. Pode ser que seja preciso rever a minha relação comigo, e também a relação com os outros.
O convite para esse segundo dia de retiro é deixar que Jesus vá reconstruindo o templo da maneira que Ele achar melhor. Ainda que pra isso seja preciso destruir. Destruir preconceitos, destruir moralismos, destruir tudo aquilo que enrijece as relações e me impede de amar em profundidade.
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