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domingo, 27 de dezembro de 2009

Pistas de Oração - Fuga para o Egito



Para você ganhar belíssimo Ano Novo(...)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem(...)
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)



Mt 2,13-18Fuga para o Egito


Depois que os visitantes foram embora, um anjo do Senhor apareceu num sonho a José e disse:
- Levante-se, pegue a criança e a sua mãe e fuja para o Egito. Fiquem lá até eu avisar, pois Herodes está procurando a criança para matá-la.
Então José se levantou no meio da noite, pegou a criança e a sua mãe e fugiu para o Egito. E eles ficaram lá até a morte de Herodes. Isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: "Eu chamei o meu filho, que estava na terra do Egito."
Quando Herodes viu que os visitantes do Oriente o haviam enganado, ficou com muita raiva e mandou matar, em Belém e nas suas vizinhanças, todos os meninos de menos de dois anos. Ele fez isso de acordo com a informação que havia recebido sobre o tempo em que a estrela havia aparecido. Assim se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito: "Ouviu-se um som em Ramá, o som de um choro amargo.
Era Raquel chorando pelos seus filhos; ela não quis ser consolada, pois todos estavam mortos."


Durante todo esse ano Deus nos deu muitas oportunidades de estarmos com Ele, de aprofundarmos a convivência, de descobrir que Ele é nosso companheiro de caminho, que Ele nasce na nossa vida a cada dia!

Que possamos na oração de hoje rever como vivemos a nossa espiritualidade nesse ano que está terminando. O que queremos mudar? O que nos ajudou e queremos manter? Em que precisamos ser mais fiéis? Reconhecer os momentos em que fui fiel ao que Deus me marcou e descobrir os frutos dessa fidelidade.

Este é o tempo dos propósitos, dos planos para o próximo ano, das promessas... Tomara que possa ser um tempo de verdadeira esperança, de verdadeiras promessas, de mudança de direção mesmo, se for o caso. Ou talvez de firmeza na direção em que estamos. Que possamos fazer todos esses planos e propósitos com Deus, e perceber como isso faz toda a diferença.

Que a nossa oração de hoje possa ser descobrir os meios necessários para manter a vida do Menino. Durante todo esse ano, e no decorrer de nossa vida, a experiência de Deus foi se forjando em nós, a presença de Deus em nossa vida foi se estabelecendo. E nesse momento estamos em um ponto crucial de nossas vidas: reconhecer o que mais nos tem ajudado e o que nos tem atrapalhado a viver a fé, a cuidar desse Menino que nos habita.

Talvez, como Maria e José, seja necessário fugir. Fugir de certas conversas, de certos ambientes, de certas atitudes, de determinadas posturas diante dos acontecimentos.

Poder reconhecer que Deus nos chama do meio de cada realidade em que estamos inseridos, como fez com José em seu sonho, e nos dá uma ordem. Para José, a ordem foi muito clara: “Levante-se, pegue a criança e sua mãe, e fuja!” Que possamos deixar que Deus nos ordene em cada situação. Que Ele nos dê ordem em todos os sentidos. Que coloque ordem em nossas vidas, em nossas bagunças, em nossa mente, em nossos sentimentos.

É realmente diferente quando planejamos a vida com Deus e quando fazemos isso sem Ele. Esse exercício me faz reconhecer como Deus é dinâmico e dá dinamismo a minha vida. Pra cada situação Ele tem uma “ordem” diferente a dar. Nessa oração, a minha experiência foi reconhecer que de cada situação que tenho que viver – trabalho, família, casamento, comunidade, amigos – brota uma “ordem” diferente.

Pra José Deus disse: “Fuja!”. Talvez para muitos de nós, o que Ele tem a dizer é: “Pare de fugir! Encare de frente essa situação!” E é isso que faz com que o convívio com Deus seja maravilhoso. Deus não nos trata em série. O diálogo é pessoal, a cada um e a cada uma de nós Ele tem algo específico a dizer. Para cada situação que estamos vivendo Ele tem palavras e ordens específicas.
Nessa oração me ajudava muito a imagem da sarça ardente, que convido vocês a contemplar também.

Ex 3, 1-4

Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Um dia em que conduzira o rebanho para além do deserto, chegou até a montanha de Deus, Horeb.
O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía) do meio a uma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia.
“Vou me aproximar, disse ele consigo, para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome.”
Vendo o Senhor que ele se aproximou para ver, chamou-o do meio da sarça: “Moisés, Moisés!” “Eis-me aqui!” respondeu ele.

No meio das situações corriqueiras (sarça), em tudo que tenho que viver, em todos os ambientes em que devo estar no próximo ano, em tudo o que planejo realizar, há uma chama, há um chamado de Deus. Entremeado as minhas propostas está a proposta de Deus. E eu só pedia a Deus sensibilidade e fidelidade para perceber a chama (que nunca se apaga, ainda que eu não veja ou não reconheça) e responder como Moisés : Eis-me aqui!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pistas de Oração - Maria visita Isabel


“Levanta-te porque passou o inverno.”

Ouvi, pois chega o meu amado saltando sobre os montes, pulando pelas colinas!
Meu amado é como um gamo, meu amado é um filhote de cerva. Vede: parou atrás da parede, espreita pelas janelas, olha pelas grades.
Meu amado fala e me diz: “Levanta-te amada minha, vem a mim! Porque passou o inverno, as chuvas pararam e se foram, brotam flores na várzea, chega o tempo de podar, o arrulho da pomba está se ouvindo nos campos; despontam os frutos na figueira, a vinha em flor difunde perfume. Levanta-te amada minha, formosa minha, vem a mim! Pomba minha que aninhas nos buracos do rochedo, nas gretas do barranco, deixa-me ver tua figura, deixa-me escutar a tua voz, porque é muito doce a tua voz e tua figura é formosa. (Cc 2, 8-14)



Que bom começar a oração com essas palavras de Deus! Que possamos acreditar que Ele realmente anseia por nossa voz. Que a nossa voz é doce para Ele.

Estamos nos aproximando do Natal, uma data muito importante para os que temos fé. O convite para oração de hoje é checar os nossos preparativos. Que nos falta para a comemoração? Pra quem estamos preparando a festa? Quem será o centro?

Lc 1, 39-45 – Maria visita Isabel
Alguns dias depois, Maria se aprontou e foi depressa para uma cidade que ficava na região montanhosa da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança se mexeu na barriga dela. Então, cheia do poder do Espírito Santo, Isabel disse bem alto:
- Você é a mais abençoada de todas as mulheres, e a criança que você vai ter é abençoada também! Quem sou eu para que a mãe do meu Senhor venha me visitar?! Quando ouvi você me cumprimentar, a criança ficou alegre e se mexeu dentro da minha barriga. Você é abençoada, pois acredita que vai acontecer o que o Senhor lhe disse.

A liturgia de hoje nos mostra a disponibilidade de Maria, que ao invés de se ocupar apenas da sua realidade vai ao encontro da prima. Vai levar ânimo e esperança.

E é a isso que nós cristãos e cristãs estamos chamados (as): levar esperança no meio em que estamos porque carregamos dentro o Messias, o Salvador. Porque somos moradas de Deus. Porque Deus nos habita e nos impulsiona a amar, e a cada Natal nos convida a renovar os ânimos, a reassumir esse lugar na história de salvação.

Acho muito bonito quando Isabel diz: Você é abençoada, pois acredita que vai acontecer o que o Senhor lhe disse. Abençoada porque acredita! Parece pouco, né? Ser reconhecida abençoada simplesmente porque acredita. Talvez para nós fosse mais confortável ouvir: “Abençoada porque não tem problemas”, “Abençoada porque já tem a vida resolvida”, “Abençoada porque tem dinheiro.”

Mas essa frase me chamava a atenção porque reconhecia nela um chamado de Deus a descobrir a alegria de acreditar. Acreditar que as coisas podem ser diferentes, que as relações podem ser mais humanas, que Ele está presente em minha vida!

O encontro com Deus me tira do centro e coloca outras realidades: realidades mundiais, realidades do país, realidades de outras pessoas. Mas não coloca essas realidades na minha vida me dando a incumbência de resolvê-las, mas de tê-las presentes. De me fazer um com o mundo. De acreditar que o Amor tem a última palavra também nessas realidades.

Viver centrada em mim mesma (o) me leva a duas atitudes extremas: ignorar o outro ou achar que vou resolver a vida do outro. Deus não me chama a nada disso. Me chama a considerar o outro como outro, diferente de mim. A reconhecer que o mundo é muito mais do que eu. A reconhecer o meu lugar do mundo, o meu lugar na minha família, na minha comunidade, no meu trabalho.

Deus nos chama a ir ao encontro do outro, sabendo-se morada de Deus, para afetar e se deixar afetar. Na passagem diz que ao ouvir a saudação de Maria o filho de Isabel saltou de alegria em seu ventre. Maria vai ao encontro de Isabel e marca a vida dela, provoca reações. E também se deixa afetar. Na continuação da passagem temos o cântico de louvor de Maria (Lc 1, 46-55). O encontro de Maria com Isabel arranca dela uma profunda gratidão.

Que a nossa oração seja essa preparação para viver o Natal com a alegria de quem acredita em todas as coisas que o Senhor nos diz.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Retiro de Advento - Terceiro Dia - Tu Serás Tenda de Encontro!



Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela.
E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria. Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.
Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina.
Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns com os outros: Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou.
Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura. Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino. Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores. Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.
Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito. (Lc 2, 1-20)

Nestes dias temos meditado sobre o que significa ser morada de Deus, que implicações concretas isso traz para minha vida. Reconhecer que Jesus nasce em nossa vida a cada dia é reconhecer que temos o mesmo potencial para amar que Ele. Podemos ter a vida centrada no Amor, como Ele teve.

Cada dia podemos acolher a vinda de Jesus, na Eucaristia, nas relações, na oração. Deus quer nos converter em sacrário vivo, em tenda de encontro. Se abro o coração para que Jesus faça nele sua morada, me transformo em lugar de encontro de Deus com o outro. Que quem se aproxima da minha vida possa reconhecer a Deus.

Depois de meditar sobre essa vida que levamos dentro, depois de reconhecê-la, Deus nos convida a deixar que essa vida saia.

Se percorrermos a vida de Jesus, poderemos perceber que, desde o Seu nascimento, todos que se encontraram com Ele e se deixaram tocar, e se abriram, mudaram de vida. A começar pelos pastores, que voltaram glorificando e louvando a Deus. Zaqueu restituiu a todos a quem defraudou e deu o que ainda lhe restou aos pobres. A mulher samaritana deixou o balde e foi contar aos vizinhos tudo que Jesus havia feito em sua vida:

A mulher deixou o cântaro, foi à aldeia e disse aos vizinhos: “Vinde ver um homem que me contou o que fiz: será ele o Messias?” (...) Nessa aldeia muitos creram nele pelo que a mulher contara afirmando que lhe tinha dito tudo que fizera. Os samaritanos ocorreram a ele e lhe pediam que ficassem com eles. Permaneceu ai dois dias, e muitos outros creram por causa das palavras dele; e diziam à mulher: “Já não cremos pelo que nos contastes, pois nós mesmos escutamos e sabemos que este é realmente o salvador do mundo. (Jo 4, 28-29. 39-42)

Outro dia uma colega do trabalho me dizia que queria fazer um trabalho social, colaborar na Paróquia, fazer alguma coisa. Mas que estava sem tempo, esperando que a vida dela se “ajeitasse”, ficasse mais tranqüila. Eu disse a ela que achava que esse dia nunca ia chegar...

As pessoas que se encontraram com Jesus sentiram essa mesma inquietação. E responderam ao chamado não porque não tivessem mais o que fazer, mas porque sentiam que não podiam mais se calar diante do que haviam presenciado. Sentiam que não podiam se acomodar diante do tamanho Amor expresso por Jesus.

A passagem diz que quando o anjo do Senhor apareceu os pastores vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite. Os pastores não foram até Belém, atrás de Jesus, porque estavam entediados ou porque o trabalho deles não fosse importante. Foram porque se sentiram chamados pelo Senhor. Foram porque intuíram que a vida deles poderia ir além, que os horizontes poderiam ser ampliados.

O mesmo se passou com Zaqueu e a Samaritana. Ambos tinham uma atividade. Não estavam à toa! Mas experimentaram um Amor tão profundo que não conseguiram fazer outra coisa a não ser anunciar, com a vida e com as palavras, que tinham encontrado Alguém especial, que tinham se encontrado com o Amor.

O convite para nosso último dia de retiro é reconhecer que Deus passou por aqui nesses dias. Que tivemos a chance de nos encontrar com Ele e de deixar que faça morada em nossa vida, em nosso coração. Será que nesses dias Jesus encontrou lugar na hospedaria? Ou ainda está no presépio?

Não tenhamos medo de responder essa pergunta. Se o encontro com Jesus ainda não aconteceu ainda temos o dia de hoje! Ainda podemos oferecer a Jesus a nossa vida, para que Ele faça sua morada.

E depois dessa experiência que possamos nos deixar tocar pelo desejo de Deus de que sejamos Tenda de Encontro com Ele para muitos. Por meio da nossa vida, Deus pode nascer no coração de muitos. Por meio das nossas atitudes é possível que reconheçam a presença de Deus.

O Senhor nos chama a sermos sinais do Amor no mundo, na situação em que estamos, sem buscar situações ideais. Sou chamada (o) a ser sinal do amor na minha família, com meu marido (esposa), filhos, filhas. Sou chamada(o) a ser sinal do amor na minha comunidade, com meus irmãos e irmãs de comunidade, na minha vocação. Sou chamada (o) a ser sinal do amor no meu trabalho, entre os meus amigos e amigas...

E quando vamos deixando que o Amor de Deus se manifeste por meio da nossa vida vamos fazendo crescer a esperança, em nós mesmos e nos outros. Advento é tempo de esperança é tempo de acreditar no poder que tem o amor encarnado, o amor feito vida, o amor que é concreto.

Há algum tempo assisti o depoimento de uma pessoa num programa de TV que me emocionou e me marcou muito. Foi o depoimento de um médico especialista em transplantes. Ele contou várias histórias impressionantes e em uma delas ele disse que houve um acidente envolvendo mãe e filha. As duas foram hospitalizadas e a filha, estando gravemente ferida, não suportou e teve morte cerebral. O médico se dirigiu ao quarto da mãe para dar a notícia. Imediatamente após saber da notícia a mãe perguntou: “Doutor, ela não pode doar nenhum órgão?” O médico ficou surpreso com a reação da senhora. Como é possível que no meio de tanta dor alguém seja capaz de tanta solidariedade, tanto desprendimento? Respondeu que sim e citou os órgãos que seriam passíveis de doação. A mulher replicou: “Não se pode doar o coração?” O médico explicou que não seria possível, porque a menina havia tomado medicamentos muito fortes e o coração estava comprometido. A mulher disse: “Que pena, ela tinha um coração tão bom...” E ao terminar de contar o médico disse: “Ouço dizer que a maldade não tem limites, mas a minha experiência como médico me permite dizer que a bondade também não!”

E sabem por que a bondade não tem limites? Porque Jesus nos deu Seu Espírito que nos dá a capacidade de amar sem limites. E isso é o Natal: Deus que se faz homem para, entre outras coisas, nos mostrar que o Amor e a bondade não têm limites!




terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Retiro de Advento - Segundo Dia: Não sabem que são templo de Deus?

No primeiro dia de retiro fomos convidados a descobrir ou redescobrir que Deus quer fazer morada em nossa vida. Que a encarnação de Deus, o nascimento de Jesus nos revela que Deus está muito próximo a nós. Deus já se colocou no meio de nós! Deus já se colocou em nós!

Mas será que somos conscientes disso? Em I Co 3, 16 Paulo questiona à Comunidade de Corinto: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” Que possamos nos questionar também. Como está a minha vida? Tenho agido como quem é consciente de que é templo de Deus?

De verdade, ainda não sabemos que somos morada de Deus... Ainda vivemos como se Deus estivesse longe de nós, nas alturas. Ainda esperamos circunstâncias especiais para falar com Ele. Ainda esperamos situações ideais para conviver com Ele. Ainda esperamos que Deus se manifeste de maneira espetacular, quase mágica.

Ainda escolhemos os assuntos a tratar com Deus, como se com Ele não fosse possível falar de tudo! Ainda reservamos espaços em que Deus não entra, não participa. Podendo estar sempre acompanhados ainda vivemos sozinhos. Ainda não vivemos plenamente essa verdade. Ainda vivemos na ignorância, ainda desvalorizamos e desprezamos a nossa vida, nosso corpo, o templo de Deus.

Deus nos convida hoje a prestar atenção no nosso corpo, que é a nossa possibilidade de se manifestar enquanto ser vivente. Eu não TENHO um corpo, SOU um corpo. Assumir isso, com todas as conseqüências que isso traz. Assumir tudo isso porque Deus mesmo assumiu.
Ele, apesar de sua condição divina, não fez alarde de ser igual a Deus, mas se esvaziou de si e tomou a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens, mostrando-se em figura humana, humilhou-se. (Fl. 2, 6-7)

Jesus se despojou da condição divina. Assumiu a contingência. E nós, muitas vezes, desejamos ser super heróis, jamais adoecer, jamais nos cansar, jamais errar, jamais perder a razão. Desejamos não envelhecer, não sentir fome (tenho que parar pra comer e isso me faz perder tempo), ter tempo pra tudo, fazer tudo, não precisar fazer escolhas...

Jesus se despojou da condição divina e nós não aceitamos a nossa condição humana... Muitas vezes não aceitamos os nossos limites. Não aceitamos os limites do outro. Assim, a convivência com Deus, com o outro e conosco fica comprometida.

Olhar pra vida de Jesus me faz perceber que Deus não poupou nada para estar perto de nós. A Palavra se fez carne e habitou entre nós. (Jo 1, 14) E habitou entre nós sendo submetido a tudo a que nós somos submetidos. Nascido de uma mulher (Gl 4,4), e obediente até a morte (Fl 2,8). Jesus não foi poupado de nenhuma etapa da vida: nasceu, cresceu, viveu e morreu. Sendo de condição divina respeitou o ciclo da vida humana, perecível.

Quantas vezes vivemos querendo pular etapas da vida? Quantas vezes entramos em guerra contra o tempo. Contra o tempo da vida, contra o tempo do relógio, contra o tempo do dia a dia. Quantas vezes queremos viver uma fé que é anestesia, que é calmante. Na vida de Jesus não houve anestesia... não houve calmante. Viveu tudo que tinha pra viver!

Reconhecer a encarnação de Jesus significa nos reconciliar com a nossa condição. Significa que esse mundo é o lugar da salvação, que o nosso corpo é o lugar da salvação. Significa que somos um: corpo e espírito. Significa reconhecer que o meu corpo não é menos espiritual do que meu espírito.

Parece que estamos todo o tempo tentando dividir. Na tentativa de valorizar o espírito desvalorizamos o meio que meu espírito tem pra se manifestar: o meu corpo. Desvalorizamos o meio que o outro tem de se manifestar. É verdade que nem só de pão vive o ser humano, mas muitas vezes esquecemos que vive também de pão.

A encarnação de Jesus nos revela que a integração é possível. Integrar corpo e espírito é possível. Na passagem a seguir, Jesus mescla as duas percepções, o templo físico e o templo corpo.

Jo 2, 13-25
Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas.
Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas.
Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes.
Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68,10). Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?
Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias.
Os judeus replicaram: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!
Mas ele falava do templo do seu corpo.

O que encontrará Jesus hoje no meu templo? Na minha vida, no meu corpo, que é templo de Deus? Talvez encontre negociantes. Talvez me encontre negociando. Negociando comigo mesma, negociando com Ele, procurando moedas de troca para oferecer.

Como está a minha relação com Deus? Na base dos negócios, da troca, do facilismo?

Jesus quer entrar na minha vida, no meu templo para purificar, para purificar minha relação com Ele, minha relação comigo e minha relação com o outro. Purificar minha relação com o meu corpo, com os meus limites, com o meu tempo. Mesmo que pra isso seja preciso espalhar muitas coisas pelo chão. Mesmo que pra isso seja preciso rever a maneira como tenho vivido a minha fé, deixar cair por terra. Pode ser que seja preciso rever a minha relação comigo, e também a relação com os outros.

O convite para esse segundo dia de retiro é deixar que Jesus vá reconstruindo o templo da maneira que Ele achar melhor. Ainda que pra isso seja preciso destruir. Destruir preconceitos, destruir moralismos, destruir tudo aquilo que enrijece as relações e me impede de amar em profundidade.